Quarta-feira, 31 de Outubro de 2007

Crítica: The Brave One

 Classificação:  (9/10)

 

 “I never understood how people lived with fear…”


Se me pedissem para definir este filme numa só palavra ficaria numa situação complicada. Se por um lado a escolha do título em português faz com que só me apeteça direccionar-lhe um ofensivo adjectivo, por outro temos uma obra cinematográfica só por si magnífica, que em parte fez-me esquecer a infeliz tradução.


Jodie Foster assina um dos melhores papéis da sua vida, ao qual não deve ser alheio a excelente direcção. Começa o filme com uma alegria estampada no rosto, com a vida que leva junto do seu noivo. A cidade é algo de misterioso, mas, a pouco e pouco vai sendo por si descoberta, através dos sons, dos movimentos e das suas locuções na rádio. Tudo parece perfeito, tudo aparenta estar bem.


Essa alegria depressa se desvanece do rosto de Foster, após o brutal ataque que sofre. Sozinha, descobre que a cidade não é assim tão bonita como idealizou, aliás todos nós achamos as coisas belas até elas nos mostrarem o seu lado mais negro. Aqui começa a sua transformação. Da desgraça emerge o seu outro “eu” (daí a estupidez da escolha do título em português), surgem uma dualidade e ambiguidade psicológica e emocional, que ela desconhecia. O processo de transfiguração devia ser descoberto ao longo do filme, até porque ela o refere várias vezes. A tradução do título indica-nos à partida esse caminho retirando alguma da magia nesse processo – e é pena…


É um retrato real e ao mesmo tempo cruel de alguém que perdeu tudo e que, por tal, se desencantou com a vida. Deparamo-nos com uma visão de Nova Iorque ainda muito sentida com os acontecimentos históricos recentes (o 11 de Setembro), mostrando um universo caótico e anárquico, onde o medo de tudo e de todos ainda está muito presente. Um pouco à imagem da personagem de Foster, ficamos com a sensação de que cada esquina antes conhecida, apresenta agora uma lacuna nas nossas vidas. É notável a relação com as forças policiais… que nada fazem e que culmina com o diálogo entre Erica e o detective Mercer, em que este último diz que nada, pelo menos legal, pode fazer para impedir certos criminosos. Mas atenção, este filme é muito mais do que um filme simplista de “vigilantes”, é um retrato de uma sociedade perdida, de uma cidade caída no esquecimento da noite, e que se deixou envolver na sua escuridão, à imagem de Erica, uma mulher sem rumo, sem referências, mas acima de tudo sem mundo, mais especificamente, sem o seu mundo.


“I miss who I was with him”


Este “The Brave One” é o exemplo perfeito, entre muitos outros, de como as técnicas de filmagens podem complementar a história que se quer contar. Os planos, muitas vezes, ajudam a personificação dos sentimentos que passam pela protagonista e o ambiente está muito bem recriado em todas as situações. O espectador sente muitas vezes o desconforto da própria personagem a percorrer-lhe o corpo com os planos que está a ver. A música e a sonoplastia estão também bem conseguidas, tal como a sequência do ataque inicial ao casal, filmado com uma crueldade inerente, recorrendo às imagens de uma handycam que dão uma ar de autenticidade (quase de snuff movie) muito importante e igualmente constrangedor.
Do que menos me agradou apenas refiro alguns clichés em que o filme cai, e que eram desnecessários, nomeadamente a primeira situação em que Foster mata no supermercado. Este momento torna o argumento irreal, marcando apenas um obrigar ao desenrolar da acção, o que era necessário. E o final, apesar de diferente, facilmente se começa a construir na nossa cabeça logo após o brutal ataque inicial.


Ainda assim, sem qualquer dúvida, um dos melhores filmes do ano e uma das melhores interpretações de Jodie Foster. A ver obrigatoriamente.


O Melhor: Tudo.


O Pior: A leviandade com que as pessoas saíram da sala de cinema, sem, pelo menos aparentemente, terem dedicado um pouco mais do seu tempo a pensar nas inúmeras conclusões que se podem retirar deste filme.

publicado por OlharCrítico às 13:54
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1 comentário:
De Knoxville a 4 de Novembro de 2007 às 19:20
É muito, muito bom sim senhor. Estará na lista dos melhores do ano, certamente. Um abraço!

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